No whitepaper do bitcoin, Satoshi Nakamoto (pseudônimo do criador do bitcoin) descreve a moeda como “a peer-to-peer eletronic cash system”. Essa sentença e o restante do documento mostram que o bitcoin é a representação do papel-moeda (a cédula de dinheiro) no meio eletrônico, uma forma totalmente independente e livre de intermediários. Mas se não existem intermediários ou bancos centrais que emitem e/ou valorizam (e desvalorizam) o bitcoin como ele é precificado?

Resposta curta

Lei da oferta e demanda. As pessoas negociam bitcoins a preços que oscilam baseados nas vontades e interesses dos compradores e vendedores.

Aprofundando um pouco mais

Milhares de exchanges (casas de câmbio / corretoras) espalhadas pelo mundo oferecem plataformas de negociação onde pessoas comuns podem abrir ordens de compra e venda de bitcoin, assim como fazem nas bolsas de valores de ações. Mas aqui temos um ponto, nas bolsas de valores existe o papel das “clearing houses”. Instituições responsáveis por viabilizar a relação entre compradores e vendedores, essas instituições são extremamente poderosas financeiramente e cuidam dos aspectos regulatórios da compensação e liquidação de ordens, garantindo que os papeis (ações) e valores serão movidos entre as partes envolvidas. As exchanges de bitcoin são hoje empresas menos complexas e menos poderosas, apesar de já existirem exchanges bem grandes como a Binance (Malta) e a Coinbase (EUA) por exemplo. Diversas exchanges não são confiáveis, inclusive várias já quebraram por falha de segurança, ou até mesmo por pura desonestidade dos seus donos.

Então essas exchanges oferecem macanismos para que pessoas negociem baseado no preço que elas decidirem. Uma pessoa pode, hoje, abrir uma ordem de compra de bitcoin e escolher pagar apenas R$ 1.000 por cada bitcoin. Isso não significa que essa ordem será executada, muito provavelmente ela ficará na fila de ordens por bastante tempo ou para sempre caso o bitcoin nunca volte a atingir o valor de R$ 1.000. O mesmo ocorre na venda, se alguém decide que quer vender seus bitcoins por 1 real isso também é possível. Nas condições de hoje essa ordem seria rapidamente executada e um comprador sortudo receberia os bitcoins. As ordens em qualquer corretora são executadas quando a vontade de um comprador combina com a vontade de um vendedor.

Então, vamos supor que José abre uma ordem de compra de bitcoin em que ele está disposto a pagar R$ 1.000 por uma quantia de 1 bitcoin e seguida Danilo abre uma ordem de venda onde ele está disposto a vender uma quantia 2 bitcoins a R$ 500 reais cada. A ordem de José será executada, e Danilo receberá R$ 500 por 1 bitcoin que José quis comprar. É basicamente igual ao mercado de ações, mas sem as regras e regulamentações e mecanismos de controle impostos pelos governos ou pelo próprio mercado. Outra diferença é que no mercado de bitcoins não existe horário de abertura e fechamento de pregão, as negociações de bitcoin ocorrem 24 horas por dia, 7 dias por semana.

Além das exchanges também é possível negociar bitcoins de maneira direta, ponto a ponto, quando uma pessoa vende diretamente para outra pessoa. Esse tipo de negociação é muito,  inclusive existem sites como o LocalBitcoins que permitem que indivíduos publiquem ofertas de compra e venda de bitcoins. Outro exemplo é o próprio Mercado Livre, diversos vendedores anunciam frações de bitcoin nesse site. Por fim, existe o mercado OTC (Over-the-counter), onde grandes investidores e empresas negociam volumes muito altos de Bitcoin. Esse mercado é utilizado em compras e vendas de grandes volumes, transações que talvez não fossem facilmente liquidados numa exchange por falta de volume por exemplo. Vamos supor que um grande investidor cadastra-se na corretora Mercado Bitcoin e resolve comprar 500 milhões de reais em bitcoin. Ele certamente causará um aumento no preço do bitcoin naquela exchange e ao mesmo tempo não conseguirá executar sua ordem por completo no tempo que deseja visto que o volume de negociações dessa corretora é inferior a 500 milhões de reais. O volume negociado nas últimas 24 horas na corretora Mercado Bitcoin é de aproximadamente 55 milhões de reais. Portanto, não há bitcoin suficiente sendo vendido nessa corretora para um investidor de grande porte. Logo é mais conveniente que grandes investidores utilizem instituições e indivíduos que possuem grandes quantidades de bitcoin e fazem negociações diretas, fora das exchanges.

O preço do bitcoin é definido de maneira descentralizada, pela lei da oferta e demanda. Se mais pessoas estão dispostas a comprar bitcoin então ele se valoriza, e contrário também é verdadeiro. O preço visto na maioria dos sites, como por exemplo, no UOL Cotações ou Yahoo Finanças é o preço médio de todas as transações nas últimos 24 horas, esse preço leva em consideração as negociações nas principais exchanges de bitcoin do mundo. Existem diversas empresas que indexam os dados de negociações de bitcoins, uma das mais conhecidas no mundo é a CoinMarketCap, onde é possível visualizar o preço do bitcoin e de mais de 2200 criptomoedas. Naturalmente como estamos falando de um mercado novo e ainda pouco testado existem algumas vulnerabilidades na precificação, uma delas é o fato de que as exchanges podem manipular as ordens fazendo os preços parecerem mais altos ou mais baixos em um dado momento. Existem relatos de corretoras que inflam os livros de negociações com o objetivo de exibirem um volume alto de transações pois isso as tornam mais atrativas aos grandes investidores. É sempre melhor negociar em exchanges com bom volume pois isso significa maiores chances de que as transações sejam sempre executadas com rapidez e melhores preços.

O processo de precificação do bitcoin coincide com a evolução do mercado de ativos digitais. Bons e maus atores atuam nesse mercado e processo de seleção natural faz que os mais honestos e mais produtivos vençam. Assim o que vemos hoje é a crescente adoção desse ativo, o que o torna cada vez mais líquido e relevante. Assim como ninguém controla o bitcoin, ninguém determina o seu preço. A precificação do bitcoin implica em precificar o valor dessa tecnologia e as consequência da sua adoção em larga escala como meio de troca, reserva de valor e unidade conta, que são as funções de uma moeda. Mas isso já é assunto para outra discussão: De onde vem o valor do bitcoin?

Este artigo é o primeiro de uma série de artigos sobre bitcoin e outros ativos digitais. Novas informações poderão ser acrescentadas de maneira que o artigo se mantenha atualizado a possíveis mudanças de mercado.

Esse artigo foi escrito em 28 de junho de 2019.
O preço de 1 bitcoin no momento que esse artigo foi escrito é de US$ 11.939,12.